As imagens que chegam de Caracas e a reação pavloviana que emana de Brasília compõem, juntas, a peça de teatro mais macabra deste início de ano. Vemos o presidente brasileiro, com aquele semblante de quem carrega o peso do mundo — mas que na verdade só carrega o peso da própria cumplicidade —, correndo para defender o indefensável. Não é apenas política externa ruim; é uma falha geológica no caráter nacional.
O que assistimos na nota do Itamaraty e nos pronunciamentos oficiais não é diplomacia. É o reflexo condicionado de uma casta que, diante do colapso de um narco-estado vizinho, não sente alívio pela libertação das vítimas, mas pânico pelo destino do algoz. Mauro Vieira interrompe as férias não porque o Brasil corre perigo, mas porque a narrativa corre perigo. A pressa em condenar a captura de Maduro revela o medo inconfesso de que a moda pegue: a ideia terrível de que tiranos também podem sangrar.
Lula fala em "soberania" com a boca cheia, como se a palavra fosse um talismã mágico capaz de santificar qualquer atrocidade cometida dentro de fronteiras demarcadas. É o velho fetiche positivista: se o crime for cometido pelo Estado, com carimbo e papel timbrado, chamam-no de "lei" e ai de quem interferir. Mas a soberania pertence à nação, não ao carcereiro que sequestrou as chaves da cela. Ao chorar pela "soberania" da Venezuela chavista, o governo brasileiro está, na prática, defendendo a inviolabilidade de um campo de concentração. Estão dizendo ao mundo que o direito do ditador de oprimir seu povo em paz vale mais do que a vida de quem está sendo oprimido.
E que "zona de paz" é essa que eles temem perder? A retórica oficial tenta nos vender a ilusão de que a América Latina era um jardim bucólico até ontem à noite. Mentira. A "paz" que o Itamaraty quer preservar é a paz dos cemitérios, a estabilidade silenciosa das ditaduras onde a oposição já fugiu, morreu ou está apodrecendo no El Helicoide. O que chamam de "caos" e "instabilidade" — a derrubada do tirano — é o único momento em que a justiça respira. Mas para o burocrata de Brasília, a ordem injusta é sempre preferível à desordem libertadora.
No fundo, toda essa movimentação, essa indignação fabricada, esses adjetivos grandiloquentes como "inaceitável" e "afronta gravíssima", servem apenas para esconder uma verdade mesquinha. Eles não estão preocupados com o Direito Internacional. Estão preocupados com o precedente. O que assombra o Planalto não são os bombardeiros em Caracas, mas o espelho. Ao verem um companheiro de ideologia ser tratado como o criminoso que é, eles sentem um calafrio na espinha, pois sabem que, sem a proteção da liturgia do cargo e da hipocrisia diplomática, eles não são estadistas: são apenas sócios do mesmo clube, torcendo para que a polícia nunca chegue na porta da sede.

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